domingo, 24 de junho de 2018

O meu comentário à Liturgia da Palavra da Solenidade do Nascimento de S. João Batista (in «Liturgia Diária», Paulus Editora)



S. João Batista, «o maior entre os filhos de mulher», de acordo com as palavras de Jesus, é uma figura incontornável do Cristianismo. A sua importância faz com que, ao contrário do habitual no que concerne aos mártires, se celebre como solenidade o dia do nascimento e não do martírio. Porque já desde o início que João dá testemunho de Cristo, ainda muito antes do seu martírio. Aliás, a veracidade do testemunho do Batista é-nos delineado no livro dos Atos, da segunda leitura: «depois de mim, vai chegar Alguém, a quem eu não sou digno de desatar as sandálias dos seus pés». A grande lição que colhemos desta celebração é a humildade do Precursor do Senhor, aquele que tendo tido a possibilidade de ser ‘glorificado’ como Messias, aceitou a verdade da sua condição, não se colocando acima do Mestre.
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O Evangelho segundo S. Lucas traça um paralelo nada ingénuo entre João Batista e Jesus: duas anunciações angélicas de cariz extraordinário, dois nascimentos de forma inesperada (uma de forma extraordinária, porque de uma estéril de idade avançada, outro de forma miraculosa, porque de uma virgem), duas atitudes diversas diante dos factos (Zacarias que duvida, Maria que confia), dois cânticos que brotam dos lábios destes dois e que a Igreja acolhe e reza no ofício divino, duas missões complementares (João como voz, Jesus como Palavra). O ministério de Jesus não pode ser interpretado sem a necessária alusão a João Batista, por quem Ele se deixou baptizar.
João Batista não é apenas uma figura de charneira entre o Antigo e o Novo Testamento, que encarna uma certa radicalização da apocalíptica judaica. João é «o maior entre os filhos de mulher» (Mt 11,11), daí que a Igreja sentisse a necessidade de celebrar solenemente o seu nascimento. Mas a sua grandeza deriva da sua profunda humildade, como nos recorda a segunda leitura («depois de mim, vai chegar Alguém, a quem eu não sou digno de desatar as sandálias dos seus pés »).
«Quem virá a ser este menino?», perguntavam os vizinhos de Isabel e Zacarias. Desde cedo se percebeu que aquele que nascia de uma estéril de idade avançada entrava num desígnio especial de Deus. Lucas testemunha as suspeitas: «a mãe do Senhor estava com ele». João assume-se como um duplo sinal: sinal de que de facto o «Verbo incarnou» no seio de Maria, e ainda no seio de sua mãe Isabel exulta de alegria perante a presença embrionária do Messias (no fundo, João constitui a verdadeira ecografia de Maria, sinal da veracidade do anúncio de Gabriel); e sinal porque testemunha da presença («Eis o Cordeiro de Deus») e do modus vivendi de Jesus («É necessário que Ele cresça e eu diminua»). João é uma provocação para os dias de hoje porque sabe o que é ser verdadeiramente testemunha/mártir: deixar que Outro seja nele, apagando-se para que outro possa brilhar. João Batista tinha discípulos que o seguiam, alguns até pensavam que ele seria o Messias. O Precursor poderia ser tentado a assumir-se como tal, ganhando protagonismo e o reconhecimento das multidões. Mas não o faz. Porque João é voz; e a voz é apenas um instrumento para que a Palavra ganhe corpo. O Batista é a voz que clama, mas é Jesus a Palavra, não só dita como Incarnada. 
Neste sentido, João Batista completa e cumpre a profecia de Isaías escutada na primeira leitura: ele já no seio de sua mãe testemunhava a presença do Messias esperado. São duas figuras que se complementam: o que em Isaías é esperança, em João Batista torna-se preparação, porque iminência. O que Isaías vislumbrava de forma remota e longínqua, João Batista observa embrionariamente, reconhece como já presente, e prepara a irrupção de Deus no mundo em Jesus, saindo de cena. Eis o grande convite e testemunho de João Batista como figura do Precursor, não só em palavras mas sobretudo em actos: a vida cristã deve ser o lugar em que somos desafiados a saír de cena, a deixar o protagonismo Àquele que veio e vem para nós como Salvador. No fundo, como batizados, a missão do cristão mais não é do que preparar em nós e nos outros uma estrada para que Jesus possa entrar, vir ao encontro dos homens. A essa virtude nós chamamos humildade, a grande lição que colhemos da solenidade deste dia.

domingo, 3 de junho de 2018

O meu comentário à Liturgia da Palavra do IX Domingo do Tempo Comum (in «Liturgia Diária», Paulus Editora)



O sábado era (e é) uma das instituições mais sagradas do Povo de Israel. Referido em relação à criação no primeiro decálogo (livro do Êxodo), como memória do dia em que Deus repousou da Sua obra criadora, que só ali estaria concluída, no livro do Deuteronómio é visto numa perspetiva teológica diversa: a memória da libertação do povo face aos egípcios, pelo que o descanso sabátio procura fazer memória da superação da escravidão vivida durante séculos. O problema não é a questão da santificação do sábado como realidade sagrada e preceito divino, mas a sua absolutização alienadora e muitas vezes desumanizadora. Jesus repudia a vivência meramente exterior e rotineira do sábado, e por isso entra em acesa polémica com os fariseus. No fundo, Jesus pretende veicular apenas uma ideia básica: nenhuma lei, seja ela qual for, está acima do ser humano e muito menos acima do próprio Deus. O cristianismo é a religião da interioridade (e humanidade) e não da aparência, pois só na verdade genuína e transparente é que se pode conhecer o esplendor da glória de Deus, «que se reflete no rosto de Cristo».
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A questão do sábado é uma questão paradoxal, não só nos evangelhos mas em grande parte da Bíblia. O sábado nasce de duas grandes necessidades: amar a Deus e o próximo. Isso mesmo está consubstanciado no mandamento do Deuteronómio: «Guarda o dia de sábado, para o santificares». Mas o desenvolvimento deste preceito acrescenta um dado importante: o repouso é extensivo a filhos, escravos, estrangeiros e até animais. Ou seja, o sábado nasce como uma escola de humanidade e como uma realidade sagrada que privilegia a igual dignidade de todos diante de Deus. O grande problema que se seguiu foram os excessos aplicativos e interpretativos desta lei, que se foi tornando uma instituição pesada, alienante e desumanizadora, de tal forma que em prol de uma suposta sacralização do dia e d’Aquele que o institui se esvaziou o sentido da humanidade e fraternidade que ele próprio preconiza. O sábado deixou, com o tempo, de ser um tempo de graça, que visa oferecer ao ser humano um período gratuito e merecido de repouso (shabat significa descansar), e passou a constituir um rol de proibições e imposições que quase obscureceu a celebração memorial da Páscoa e esvaziou a sacralidade do dia.

A polémica com Jesus surge, assim, de forma natural. Cristo não pactua com injustiças sociais, e olha para a humanidade como algo que é mais importante que o próprio sábado, pois só o ser humano é «criado à imagem e semelhança de Deus». A expressão dos fariseus («Vê como eles fazem ao sábado o que não é permitido») é o olhar condenatório que ainda hoje muitos mantêm em relação a tantos irmãos na fé. Os olhos, a língua e os dedos parecem sempre prontos para atacar quem, aparentemente, quebra protocolos e não segue os padrões esperados. Mas, como diz Jesus, «o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado». Jesus censura a atitude daqueles que se colocam numa posição de superioridade diante dos outros, assumindo-se como juízes e árbitros da vida alheia. No fundo, os dias santos (sábado para os judeus, domingo para os cristãos) são importantes na medida em que nos ‘obrigam’ a recordar as maravilhas que Deus fez e faz na história de cada um e na história de um povo, além de nos convidar a saborear o que a vida tem de bom e que mais dificilmente se obtém durante os outros dias da semana: o convívio, o descanso, o lazer, a família, as manifestações visíveis de caridade e dignidade humana. Deus repudia os atos ocos e rotineiros de piedade, que se realizam por mero preceito, movidos pela aparência e não pela convicção de coração. Liturgias solenes e comunhões em massa são inócuas quando não se traduzem existencialmente na alegria fraterna e na comunhão de vida com os demais. A santificação do dia sagrado começa com a santificação do ser humano, no reconhecimento da sua dignidade e no acolhimento das suas vidas, únicas e irrepetíveis. Por isso, é função da Igreja ajudar a que cada crente se liberte cada vez mais de tudo aquilo que aprisiona e asfixia o acolhimento normal dos dons de Deus, desenvolvendo um olhar e gestos concretos de misericórdia e caridade pastoral que levem os seus filhos a sentirem-se amados e protegidos no seu seio, e a fazer experiência concreta de que Jesus é não só Senhor do sábado mas também dos seus corações. 

domingo, 20 de maio de 2018

O meu comentário à Liturgia da Palavra do Domingo de Pentecostes (in «Liturgia Diária», Paulus Editora)


O Domingo de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa, assinala a conclusão do Tempo Pascal. Efetivamente, a missão de Jesus termina apenas com o envio do Espírito Santo e a continuidade histórica do mistério da Incarnação pela Igreja. É isto mesmo que se celebra no dia de hoje: a presença do Ressuscitado na história através do Seu Espírito e da acção da Igreja, garantes da eficácia da obra de Cristo na contemporaneidade de todos os tempos e lugares. Para muitos teólogos, a manifestação do Espírito Santo no dia de Pentecostes assinala o verdadeiro início da Igreja, realidade que nasce da Páscoa do Senhor e que encontra no Seu Espírito o motor do dinamismo missionário eclesial. Mas o que importa verdadeiramente salientar, e as leituras de hoje testemunham isso, é a mudança de paradigma relacional que se estabelece: do «Deus connosco» (o Verbo de Deus feito Carne) ao «Deus em nós» (o Espírito Santo em nós derramado), rumo à cristificação interior do nosso ser que S. Paulo tão bem testemunha («já não sou que vivo, é Cristo que vive em mim»).
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O Espírito Santo surge como promessa nos discursos de Jesus, sobretudo no evangelho de João, e como realidade no livro dos Atos (também designado como o Evangelho do Espírito Santo). Desde cedo que a Igreja percebeu que era movida por uma realidade sobrenatural que a superava, mas pela qual se deixava conduzir; era a presença do Ressuscitado, manifestação invisível mas que se tornava visível nas obras que confirmavam tal ação divina. E porque só os olhos da fé conseguem captar tal realidade, os autores sagrados sempre tiveram alguma dificuldade em descrever o modo como essa manifestação divina se efetua. Lucas ousa fazê-lo nos Atos através da descrição de um evento extraordinário vivido pelos Apóstolos, com o recurso a imagens e categorias conhecidas das teofanias do Antigo Testamento. Vento e línguas de fogo são elementos veterotestamentários aplicados ao Espírito: o espírito (ou vento, visto que a palavra hebarica ruah pode ter ambos os significados) que pairava sobre as águas aquando da criação, e as línguas de fogo que, segundo uma tradição judaica acerca do Sinai, representam a palavra de Deus comunicada à humanidade até então conhecida (que naquele tempo seriam 70 povos) e que pela sua materialidade se tornam inteligíveis. Os efeitos que estas línguas de fogo provocam nos Apóstolos confirmam esta teoria, já que surgem a falar várias línguas e a fazer-se perceber mesmo aos de terras mais longínquas (seriam, provavelmente, judeus da diáspora). O Pentecostes é, por isso, a celebração da universalidade da Igreja, da sua intrínseca natureza católica e inclusiva, que não conhece qualquer tipo de barreiras e fronteiras. O particularismo judaico é esbatido e o mundo assiste a uma verdadeira «nova criação», que a imagem do próprio vento suscita.
Mas mais do que afirmar quem é o Espírito Santo, as leituras pretendem sobretudo veicular quais os efeitos e consequências. São essas notas que se apresentam de forma sintética:

  • O Espírito Santo derruba barreiras linguísticas e étnicas, porque se apoia na linguagem do amor. A possibilidade de falar em várias línguas não tem apenas a ver com uma questão linguística, mas de atitude – aquela de quem se quer fazer compreender e que por isso tenta adequar a sua linguagem e o seu discurso ao destinatário, não impondo mas propondo;
  • O Espírito dinamiza a vida da Igreja suscitando dons e carismas para a edificação do Corpo de Cristo. Paulo ensina-nos, na segunda leitura, a viver a unidade na diversidade, a aceitarmos a diferença e a complementaridade de cada batizado, no sentido da colaboração mútua e objectivo comum. Nesse sentido não há serviços maiores e menores, membros inferiores e superiores, mas papéis diversos no cumprimento da missão eclesial. Deste modo, o Pentecostes assume-se como a resposta de Deus à Torre de Babel, cuja dispersão e confusão lançadas por Deus visavam quebrar a uniformidade como modo de vida; a pluralidade é um bem, quando vivida na unidade e comunhão de quem tolera e respeita o outro (seu irmão);
  • O Espírito Santo cria e recria a humanidade através do perdão. O sopro de Jesus no evangelho de S. João recorda o sopro de Deus sobre Adão – estamos diante de uma humanidade redimida e recriada em Jesus. O Espírito Santo atuante na Igreja, de forma particular nos seus sacramentos, regenera a debilidade das criaturas e restitui, mediante a reconciliação, a condição de «imagem e semelhança de Deus» que o ser humano vê desfigurada sempre que peca. Para que a vida surja é necessário que a morte seja removida, e o Espírito Santo é o único a ter, hoje, a possibilidade de o fazer.

domingo, 18 de março de 2018

O meu comentário à Liturgia da Palavra do Domingo V da Quaresma (in «Liturgia Diária», Paulus Editora)


Mais uma vez, este domingo convida o leitor a olhar para a aliança de Deus com os homens. De facto, ao longo deste itinerário quaresmal a liturgia da palavra usa de forma abundante a linguagem típica da aliança, como critério para o exame de consciência e revisão de vida do Povo de Deus. Porém, com a aproximação da celebração do mistério pascal e a intensificação do processo de Jesus, que culminará na Sua paixão e morte, esta linguagem vai ganhando novos e redefinidos contornos. Pela primeira vez em toda a Bíblia é usada a expressão «aliança nova», por parte do profeta Jeremias, termo esse que Jesus acolherá no momento da Última Ceia e a Igreja perpetua na celebração da Eucaristia como memorial da Páscoa do Senhor. É esse sentido da «nova aliança» que a liturgia deste domingo desenvolve mediante a Palavra proposta, abrindo a porta para a Sua concretização plena no mistério pascal de Cristo.
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Falar de aliança significa falar de uma relação, de uma responsabilidade, de uma pertença recíproca, e no contexto da história da salvação significa a relação particular que Deus quis estabelecer com a humanidade através do povo eleito, Israel, Sua «propriedade particular», e na plenitude dos tempos por meio de Jesus Cristo, Seu Filho. No Antigo Testamento, a aliança (berît, em hebraico) exige sempre o empenho daquele que assume diante de outro um certo compromisso, que neste contexto se configura em promessa. Quando o sentido se alargou para o âmbito legalista, com o sentido de pato bilateral, na reciprocidade de direitos e deveres, a Escritura procurou sempre salvaguardar a imutável fidelidade de Deus, mesmo diante das constantes violações humanas da dita aliança. Deus não se cansa de renovar a aliança, olhando com misericórdia para o Seu povo peregrino. No entanto, como bem nota o profeta, os fiéis caíram no erro de se ficar pela exterioridade da letra da Lei (Torah), recebida e comunicada por Moisés, privilegiando o sentido jurídico da aliança (direitos e deveres) em detrimento da dimensão relacional e amorosa que está na sua base. Jeremias anuncia um tempo novo, uma «aliança nova», no sentido de uma renovação autêntica da relação interior e espiritual entre Deus e os homens: «hei-de imprimir a minha lei no íntimo da sua alma e gravá-la-ei no seu coração». Ontem como hoje, Deus não quer que a aliança se torne um fardo, um estatuto meramente jurídico, formal e rígido, que restringe a liberdade e transforma em dever e segurança aquilo que deveria ser relação e amor. Ontem como hoje, a voz do profeta se faz sentir para dizer que a religião autêntica não pode assentar num vínculo meramente exterior e convencional, mas apoiar-se numa relação de interioridade e autenticidade. A vida espiritual dos fiéis não se alimenta de mecanismos e rotinas sem substância, mas de um conhecimento profundo de Deus, no sentido bíblico do termo e que Jeremias veicula: entrar numa relação de intimidade e de comunhão plena de vida ao ponto de atingir uma convergência de sentimentos e olhar. 
Este conhecimento deve ser espoletado por uma vontade. «Senhor, nós queríamos ver Jesus», diziam os gregos a um dos discípulos do Senhor, cumprindo o anúncio profético da primeira leitura relativamente à abertura universal também aos pagãos: «Todos me conhecerão». O desejo de estar com Jesus, para O conhecer, amar e seguir, é condição sine qua non para viver esta «aliança nova», que agora ganha a forma da cruz de Cristo. Em Jesus, imprimir a lei na alma e gravá-la no coração significa percorrer o mesmo caminho do Mestre, partilhar o Seu destino e imitar os seus gestos. A «aliança nova» tem um rosto e tem um nome, e pelo Seu Espírito derramado em nós pelo batismo, somos ‘cristificados’, identificados com Cristo. A lei que Cristo postula não é a lei da letra, mas do Espírito. O exemplo de Jesus torna-se (a) lei e motor de vida, chave de leitura da existência cristã. O Evangelho deste domingo insiste na necessidade de ‘passar’ com Cristo para uma outra dimensão da aliança: o sentido da vida está na capacidade de fazê-la dom. Saber morrer para si e viver em Deus, deixando que a semente lançada cresça no silêncio de quem não busca protagonismo mas permite que o Senhor a faça crescer e frutificar, são atitudes básicas que a imagem do grão de trigo nos inspiram. E o verdadeiro fruto da vida cristã enquanto configuração com Cristo é servi-l’O com humildade e tornar presente no mundo esta lei invisível que se traz no coração mediante a coerência do testemunho. Porque, como alguém um dia disse, «quem não vive para servir, não serve para viver».

domingo, 11 de março de 2018

O meu comentário à Liturgia da Palavra do Domingo IV da Quaresma (in «Liturgia Diária», Paulus Editora)


O caminho quaresmal, procurando reproduzir, em chave litúrgica, o caminho do Êxodo, interpela cada crente a repensar a sua vida e a sua história à luz de Deus. O veemente apelo à conversão, que ecoa em cada palavra deste itinerário, tem como fundo permanente um passado de infidelidade à aliança que adensa a distância entre Deus e a humanidade. É este olhar crente que o povo de Israel tinha sobre si. Os acontecimentos históricos eram lidos e interpretados à luz da fé, e eram entendidos no quadro de uma pedagogia divina de retribuição ou de punição. Foi assim com o caminho exodal e com o exílio, entre outros, motivos directa ou indirectamente evocados na liturgia da palavra. A celebração deste domingo demonstra esta possibilidade de passar das trevas à luz, da ruína à glória, do pecado à graça. Deus, «que é rico em misericórdia», segundo a linguagem paulina, não desiste do Seu Povo e tudo faz para o reconquistar: seja através de homens inesperados, como Ciro, seja através do envio de Seu próprio Filho. E assim se cumpre o que diz Paulo: «a salvação não vem de vós; é dom de Deus».
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O Segundo Livro das Crónicas, fazendo eco das vicissitudes históricas do Povo de Israel, recorda as suas constantes infidelidades e atrocidades, que contrastam com a permanente benevolência de Deus, que nunca cessou de lhes enviar mensageiros e suscitar caminhos de conversão e renovação da aliança. Muitos dos autores bíblicos afirmam que a invasão da Terra Santa por parte de pagãos, a destruição do Templo e a consequente deportação para a Babilónia tiveram como raíz o esquecimento e o abandono de Deus. É este de facto o grande pecado de Israel: conhecer a Lei sem a praticar (segundo o espírito), compreender a história da salvação mas afastar-se do Seu motor e interveniente primeiro. Contudo, mesmo diante deste cenário aparentemente desolador, Deus é capaz de reconstruir e reconduzir a história para bem do Seu povo eleito. Para isso faz emergir instrumentos de salvação até das proveniências mais inesperadas, como sucede com Ciro, rei da Pérsia, responsável pelo regresso dos judeus a Jerusalém. Efectivamente, como diz S. Paulo, a salvação «não se deve às obras: ninguém se pode gloriar»; ela nasce sempre por um golpe de misericórdia.
Como se sabe, a Bíblia está carregada de histórias de verdadeiras reviravoltas. Deus faz acontecer realidades de vida onde aparentemente só reinam as trevas e a escuridão. O próprio Evangelho de João faz mênção desse paradoxo no seu prólogo, dizendo que a «luz brilha nas trevas, mas as trevas não a receberam»; reafirma, porém, que «a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus». É este o pano de fundo da leitura evangélica deste domingo. O evangelista parte de uma constatação («a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque eram más as suas obras») para poder propor uma solução para a ‘escuridão’ do presente. Seria normal, nos tempos de perseguição e frustração que viviam as comunidades joaninas, a escolha da via mais simples, que era a negação d’Aquele que haviam conhecido e aderido. A memória do Êxodo reaviva no leitor a certeza de que mesmo nos momentos de maior dificuldade, em que Deus parece alhear-se e fazer silêncio, é apenas mais uma etapa de prova rumo à Terra prometida. Mas esta etapa, que cada crente é desafiado a viver no seu itinerário de fé, surge marcada sob o sinal do paradoxo: assim como no caminho do deserto, a serpente, símbolo da tentação e perdição, se tornou lugar de salvação para os que ela contemplavam, assim a cruz, sinal de ignomínia e condenação, se tornou lugar de glorificação para Aquele que nela esteve suspenso e para os que O reconhecem como o Filho de Deus. Deste modo, a liturgia nos diz que a fé não é um dado adquirido por si mesmo, nem a felicidade sempre rima com felicidade. Não é fácil acreditar num Deus assim, que ama tanto o mundo «que entregou o seu Filho Unigénito». Mas a cruz, enquanto lugar do amor, torna-se o lugar do encontro com Deus em Jesus Cristo, e torna-se ela mesma a medida de vida do cristão: ser discípulo é percorrer a via de Jesus, no meio de paradoxos e ambiguidades, para com Ele entrar na glória e na comunhão plena com o Pai, que conduz cada um de nós a oferecer-se aos outros e a manifestar as obras de Deus. E assim se concretiza o sonho de Paulo: «nós somos obra de Deus, criados em Jesus Cristo, em vista das boas obras que Deus de antemão preparou, como caminho que devemos seguir».

domingo, 4 de março de 2018

O meu comentário à Liturgia da Palavra do Domingo III da Quaresma (in «Liturgia Diária», Paulus Editora)

(Purificação do Templo, El Greco)

O Evangelho segundo S. João tem uma estrutura muito particular, não só do ponto de vista teológico mas igualmente na apresentação de uma certa ‘histografia’ de Jesus. Desde o início do ministério público de Jesus até ao Seu mistério pascal, o quarto evangelista narra a presença de Jesus em Jerusalém por três vezes no contexto de celebração da Páscoa. O episódio da purificação do Templo insere-se nessa primeira ida a Jerusalém, mas assume uma configuração diferente da narrativa dos sinópticos: enquanto que nestes o gesto profético de Jesus precipitou o Seu processo de condenação e morte, no evangelho de João está ao serviço de uma teologia dos sinais que caracterizam os primeiros 12 capítulos deste livro. Deste modo Jesus mete em marcha uma ampla reconfiguração da fé do povo judaico e propõe uma renovada interpretação da Lei de Moisés (Decálogo), código da aliança entre Deus e o Povo que a primeira leitura expõe. E projecta para o Seu mistério pascal a chave hermenêutica de toda a Sua vida e pessoa, onde se revela o verdadeiro milagre que os judeus pedem e onde se manifesta a sabedoria que os gregos procuram.
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Aquilo que incomodou os judeus daquele tempo é a mesma realidade que hoje continua a importunar os membros da Igreja, novo Povo de Deus. A palavra de Jesus é incómoda e desafiante, muitas vezes escandalosa e provocadora. Ontem como hoje, na busca de uma vivência mais plena da religião, Jesus deseja purificar a essência do verdadeiro culto, das nossas liturgias e práticas de fé. Ontem como hoje, Jesus desafia a regressar à centralidade de Deus e da pessoa, em detrimento de uma ‘lei’ desencarnada e desprovida do seu verdadeiro espírito.
Efectivamente, «Ele bem sabia o que há no homem». Os escritos veterotestamentários já nos testemunham este olhar profundo de Deus que não se fica pelas aparências, mas olha o coração; Jesus apenas se limita a evidenciar este olhar do Pai que não pode pactuar com a hipocrisia de quem diz acreditar sem verdadeiramente se converter. Aliás, o Decálogo, que hoje nos é dado na primeira leitura a partir da tradição do Êxodo, não é um mero manual de bons costumes ou conduta ética, para ser seguido fiel e cegamente como caminho único e exclusivo de salvação. Os «10 mandamentos», como vulgarmente os conhecemos, são antes de mais um dom de Deus, uma resposta divina à fragilidade do ser humano, uma acção gratuita da misericórdia de um Deus que vê o Seu povo vacilar e que por isso oferece como dom e sob a categoria de ‘lei divina’ as palavras que permitem viver mais plenamente a vocação humana e a aliança com Deus.
Porém, esta obediência à lei deve ser vivida em liberdade, na procura de uma sintonia perfeita entre dois corações: o humano e o divino. No fundo, mais do que vencido, é preciso estar-se convencido da proposta do Senhor, e aderir não só aparente mas realmente. É isso mesmo que Jesus procura evidenciar através do gesto da purificação. Geralmente, o evangelho de S. João deve ser lido como um díptico: a realidade física e a realidade teológico-espiritual, em que esta interpreta aquela. Só assim assume a categoria de sinal que remete para uma dimensão superior ao acto físico enquanto tal. Purificar o Templo significa erradicar o que é nefasto da realidade religiosa mais sagrada do tempo, abalando as estruturas judaicas e a forma como concebiam o culto e exploravam o povo; mas para os destinatários do evangelho, que já assumiram a ressurreição como realidade e presenciaram historicamente a destruição do Templo anunciada por Jesus (ano 70 d.C.), significa igualmente purificar e sacralizar o novo Templo, que é o Corpo de Cristo, a Igreja, nascida do lado aberto de Jesus na Cruz. Deste modo, para os cristãos de hoje, o gesto profético de Jesus deve ecoar aos ouvidos com veemência e como desafio: desafio a uma Igreja não impecável mas arejada, centralizada na gratuidade do louvor de Deus, numa liturgia coerente com a vida, que abre as portas a quem nela quer entrar. No fundo, como tanto tem advertido o Papa Francisco, é necessário que os agentes pastorais não se refugiem nas regras e normas que obstaculizam o olhar da misericórdia sobre a pessoa humana, agindo tantas vezes como controladores da graça e não como facilitadores. É que «a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fatigante» (EG 47).

domingo, 25 de fevereiro de 2018

O meu comentário à Liturgia da Palavra do Domingo II da Quaresma (in «Liturgia Diária», Paulus Editora)


(Transfiguração, da autoria de Rafael - Museus do Vaticano)

A Transfiguração do Senhor tem um lugar central na liturgia do Domingo II da Quaresma. A história da salvação, que muitos afirmam começar em Abraão, protagonista da primeira leitura, encontra em Cristo a sua plenitude. Aparecendo ao lado de Moisés e Elias no cimo do monte, o evangelista procura apontar Jesus como aquele que é superior à Lei e aos profetas que cada um daqueles representa, não numa ótica de rutura mas de clara continuidade e permanente diálogo. Mas essa perceção surgirá apenas quando Jesus ressuscitar dos mortos, como o próprio antecipa no final do evangelho. Só no mistério pascal de Cristo surge iluminado o verdadeiro alcance quer do sacrifício de Abraão, quer da transfiguração do Senhor como desvelamento antecipatório da identidade divina de Jesus. É esse caminho de reconhecimento e de busca que a Palavra nos incita a percorrer, sem permanecermos imóveis e acampados em qualquer «Tabor» do nosso mundo.
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Fides ex auditu - ‘a fé nasce da escuta’. Por detrás de uma adesão à fé está a escuta de uma Palavra que se afigura como credível e, em tantos, transformadora. Provavelmente na Sagrada Escritura, o verbo escutar é dos mais utilizados, e muitos deles em forma imperativa. O «Shemá Israel» (Escuta, Israel) tornou-se a oração de profissão de fé por excelência do Povo de Israel, sabido de cor e meditado vezes sem fim pelos crentes. Mas na sua raíz etimológica hebraica, ouvir/escutar não são apenas atos sensíveis e tantas vezes mecânicos; a escuta, na vida da fé, deve significar ‘obediência’. É por isso que esta liturgia de hoje, em que a escuta ocupa um lugar primordial, apresenta o caso de Abraão. Por três vezes, o pai de todos os crentes obedece à voz do Alto, mesmo que o conteúdo do pedido fosse carregado de incerteza, ambiguidade e até alguma aparente desumanidade. A voz de Deus surge sempre como pedagogo de um caminho de liberdade humana: em Abraão, ensinando a olhar o filho (ou, em sentido mais amplo, qualquer relação privilegiada com o que de melhor se possui) na medida justa como dom de Deus, sem quaisquer disposições possessivas e reivindicativas; nos três discípulos a quem Jesus se manifesta (Pedro, Tiago e João), a não se ficarem pela espectacularidade do acontecimento testemunhado, limitados ao exterior, mas sobretudo a tomarem a sério tudo aquilo que sai da boca de Jesus como palavra salvífica e transfiguradora.
Por isso, esta voz que se faz sentir, não só nestes textos mas em toda a vida da Igreja, é uma voz qualificada, que não deve paralisar as ações mas antes promover um caminho a ser percorrido. A Igreja não deve ceder à tentação de acampar no «Tabor» dos seus sacramentos e liturgias, de forma estática e fria; o verdadeiro «Tabor» é aquele que não só facilita a ‘transfiguração’ sacramental de Jesus na Eucaristia (e demais sacramentos) como também impele a «descer do monte» e a encarar (para a transfigurar cristicamente) a realidade humana tal como é, não já com o olhar cético de quem duvida  mas com o horizonte de esperança que o coração transfigurado pela palavra de Jesus permite a cada cristão. Quando isso acontecer, perceberemos que não caminhamos sozinhos, mas nos acompanha a «nuvem» com a sua sombra (a Shekinah que guiava o Povo de Israel no caminho do Êxodo), que se fez manifestar no monte como sinal visível e audível da presença divina. E deste modo, a ‘descida do monte’ será feita sem receios de qualquer fracasso, mas na certeza de que «se Deus está por nós, quem estará contra nós?».