terça-feira, 7 de novembro de 2017

Os padres não podem pecar?



É gritante e evidente a forma manipuladora como a comunicação social se aproveita de notícias 'menores' para fazer uma espécie de «Caso de Inquisição». Sim, parece verdadeiramente um caso dessa realidade que tantos repudiam e acusam como uma vergonha histórica da Igreja, mas vista anacronicamente para explicar a sua aversão (ou indiferença) actual em relação a esta instituição.

Ora, esta semana temos assistido a uma verdadeira novela (para não lhe chamar outra coisa) em relação à paternidade biológica assumida por um sacerdote, fruto de um envolvimento (fortuito) com uma senhora. E logo se alçam vozes discordantes, ajuizadoras e intolerantes sobre a aparente desonestidade e indignidade do dito sacerdote para continuar a desempenhar o seu ministério presbiteral. Aí está o paradoxo: as vozes que se alçam para acusar a falta de caridade e misericórdia  da Igreja diante de algumas situações ditas 'irregulares' são as mesmas que se alçam para apelar à falta de caridade e misericórdia da Igreja para com este sacerdote. Esta autêntica novela ganha contornos de verdadeiro enredo através de chavões feitos mas sempre repetidos até à exaustão, aproveitando esta notícia para defender convicções pessoais e posições imadurecidas.

A pergunta que faço é esta: os padres não podem pecar?! A resposta parece óbvia. Mas importa aprofundar. Obviamente que os padres não devem pecar; assim como os cristãos não devem pecar! Vou mais longe: nenhum de nós quer pecar. É esse o propósito que fazemos sempre que nos confessamos. Mas a realidade que vivemos é outra: não devemos pecar, não queremos pecar... mas pecamos. Já diz S. Paulo: «sei o bem que quero e faço o mal que não quero» (Rom 7,19). Mas a pedagogia divina diz-nos que não devemos ficar amarrados a esse pecado; a misericórdia deve triunfar sobre os efeitos nefastos que o pecado provoca. A acção de Jesus consistiu em 'crucificar' o pecado para resgatar o pecador! Esta continua a ser a pedagogia da Igreja, quando no sacramento da Reconciliação o sacerdote, no momento da absolvição, diz: «Eu te absolvo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo!». E no fim pode acrescentar as palavras que Jesus pronunciou à mulher adúltera: «Vai e não tornes a pecar!» (Jo 8,11).

«Vai e não tornes a pecar!». É esta a frase chave. Não tornar a pecar. Eu não quero pecar, eu não devo pecar, mas peco! E reconheço esse erro. E assumo esse erro. Mas a misericórdia de Deus, mediante o nosso arrependimento e contrição, continua a dizer: «Vai e não tornes a pecar!». É provavelmente esta certeza de fé e este desejo de coração que fazem com que um sacerdote se possa erguer diante das suas quedas, que se possa levantar diante dos seus fracassos, que se possa recompor diante de um descuido. Porque não quer ficar afecto a esse pecado, porque pode não ficar afecto a esse pecado, porque «a misericórdia triunfa sobre o juízo» (Tg 2,13). Mas nós, padres, viveremos sempre paradoxalmente este limite de quem é olhado (e bem) como testemunha privilegiada de fidelidade: o perigo de não se perdoar a quem já tanto perdoou; o perigo de ser julgado por aqueles para quem foi o único a não julgar em determinada circunstância da vida dessa pessoa; o perigo de universalizar o particular em que os defeitos e pecados de um se tornam irremediavelmente os defeitos e os pecados de todos; o perigo de querer atribuir ao dom do celibato, escolhido voluntaria e livremente, a raíz de todos os problemas de natureza afectivo-sexual, sem usar os mesmos critérios e analogia para membros de casais que cometem (os mesmos) desvios morais e incumprimento da fidelidade (e em muito maior número)!

Como tão bem tem frisado o Papa Francisco, há que discernir cada situação no seu contexto! Adultério sempre haverá, mesmo que não o queiramos; infidelidade ao celibato sempre haverá, mesmo que o não desejemos. Mas o que Deus não quer verdadeiramente é que a nossa vida e a nossa vocação sejam postas em causa por um «acidente de percurso», seja no matrimónio seja no sacerdócio. Assumir o(s) erro(s) e os seus efeitos demonstra humildade, coragem e grandeza humana. Saber superá-lo(s) e reconciliá-lo(s) connosco já é dom e graça de Deus. Crucificar o pecado e 'revitalizar' o pecador - eis o desafio a cada um de nós. Pois já diz o Apóstolo: «quem és tu para julgar o próximo?» (Tg 4,12); ou o próprio Jesus: «Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra» (Jo 8,7). 

domingo, 5 de novembro de 2017

«Não digas uma coisa e faças outra» - ecos sábios da Palavra deste Domingo





NÃO DIGAS UMA COISA E FAÇAS OUTRA...

Confesso que todos somos fracos; mas o Senhor Deus pôs à nossa disposição os meios que, se quisermos, facilmente nos podem ajudar. Tal sacerdote desejaria adoptar a pureza de vida que lhe é exigida, ser casto e ter costumes angélicos, como é devido. Mas não se propõe lançar mãos dos meios para isso: jejuar, rezar, fugir de más conversas e de familiaridades perigosas.
Queixa se outro sacerdote de que, ao entrar no coro para salmodiar ou ao dispor se para celebrar missa, imediatamente lhe assaltam o espírito mil coisas que o distraem de Deus. Mas, antes de ir para o coro ou para a missa, que fazia ele na sacristia, como se preparou e que meios escolheu e empregou para concentrar a atenção?
Queres que te ensine como adiantar de virtude em virtude e, se já estiveste com atenção no coro, como estarás na vez seguinte ainda mais atento, para que o teu culto de louvor seja cada vez mais agradável a Deus? Ouve o que digo. Se já se acendeu em ti alguma centelha do amor divino, não queiras manifestá la imediatamente, não queiras expô la ao vento. Deixa o forno fechado, para não arrefecer e perder o calor. Evita as distracções na medida do possível. Conserva te recolhido com Deus e foge das conversas frívolas.
É tua missão pregar e ensinar? Estuda e consagra te a quanto é necessário para desempenhar devidamente esse ministério. Procura, antes de tudo, pregar com a tua própria vida e os teus costumes, para não acontecer que, vendo te dizer uma coisa e fazer outra, comecem a menear a cabeça e a troçar das tuas palavras.
Exerces a cura de almas? Não descures então o cuidado de ti próprio, para não te dares tão desinteressadamente aos demais que nada reserves para ti. Sem dúvida, é necessário que te lembres das almas que diriges, mas desde que te não esqueças de ti.
Compreendei, irmãos, que nada é tão necessário para todos os clérigos como a oração mental, que precede, acompanha e segue todas as nossas orações. Cantarei, diz o profeta, e meditarei. Se administras sacramentos, irmão, medita no que fazes; se celebras missa, pensa no que ofereces; se cantas no coro, considera a quem falas e o que dizes; se diriges almas, medita em que sangue foram purificadas. Tudo entre vós se faça com espírito de caridade. Assim poderemos vencer facilmente as inumeráveis dificuldades que inevitavelmente encontramos cada dia (formam parte do nosso ministério). Assim teremos força para fazer nascer Cristo em nós e nos outros.

(S. Carlos Borromeu, bispo de Milão)

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A «Irmã Morte» - entre o enigma e a certeza



Por muito que neguemos, apelando à fé cristã que dizemos possuír, a morte afigura-se-nos sempre com uma inevitável carga dramática, entre a ambiguidade ou a irreversibilidade. De facto, acreditar que Cristo ressuscitou e que nós com Ele e n'Ele ressuscitaremos torna-se apaziguador, mas nem por isso anula aquilo que é insegurança diante de um «desconhecido» que inevitavelmente todos teremos de conhecer. 
Ingenuamente, achamos que a realidade da morte sempre foi pacífica e entendida linearmente na Escritura Sagrada. Mas não é assim. No Antigo Testamento a ideia de uma vida depois da morte está pouco presente: a vida do povo de Israel foca-se fundamentalmente 'nesta vida' e no modo como a vivemos. Gn 25,8 recorda que Abraão morre «velho e saciado de dias», aceitando serenamente a morte após uma vida longa e feliz. Mesmo quando lemos que o justo, depois da morte, se junta aos seus pais (Gn 48,29), apenas se quer afirmar que será sepultado no mesmo local em que jazem os seus familiares. Efectivamente, na concepção israelita clássica a morte é o lugar da «não vida» (Sal 115,17-18), um regresso à terra da qual fomos tirados (Sal 90,3), onde ninguém pode louvar a Deus.
Também alguns textos, se não bem enquadrados historica e teologicamente, podem ser precipitadamente classificados como ilustrativos de uma vida depois da morte, anunciada ou já vivida. É o caso de  Ez 37, no famoso capítulo dedicado à revivificação dos ossos ressequidos. Porém, estas leituras, lidas em chave alegórica, pretendem situar o regresso do exílio como uma verdadeira 'ressurreição', uma passagem de uma realidade de trevas a uma realidade de luz. Os sepulcros que o Senhor declara abrir para o povo são uma imagem da permanência de Israel em terra estrangeira, na Babilónia, onde aquele pensa ter morrido enquanto povo. Nesta linha vai igualmente Isaías no capítulo 26 (vv.16-19), que categoricamente afirma: «Mas de novo viverão os teus mortos; os meus cadáveres ressurgirão».
A noção de imortalidade (da alma) começa a surgir apenas em textos mais tardios, por volta do século IV a.C., primeiro em literatura extra-bíblica e depois materializada nos textos ditos sapienciais. Claro que a noção de uma vida depois da morte, em que as almas dos bons são separadas das dos maus, encontra resistência nalguns livros inspirados. Qohelet propõe uma visão absolutamente negativa da vida depois da morte («tudo é ilusão», diz repetidamente, e «tudo é igual para todos: para o justo e para o malvado...»); Job mete em crise a doutrina da retribuição, pois vê-se confrontado, em 1ª pessoa, pela injustiça de um justo que sofre; Ben Sirá permanece ainda nesta visão de que a morte é o fim de tudo, ainda que sem a radicalidade de Qohelet: o que interessa é o usufruto pleno desta vida, pois quem não sabe saborear os bens penúltimos que Deus dá, não será capaz de saborear os bens últimos (Sir 14,12-19).
No entanto, subjaz sempre a ideia de que mesmo não sendo um conteúdo demasiado evidente, acredita-se que Deus é o Senhor da vida, e como tal deve sê-lo também no momento da morte, mesmo que a forma como isso se processa não seja visível. Só no 2º Livro dos Macabeus essa realidade se torna mais visível. Em tempo de perseguição (e martírio), a questão da justiça de Deus ganha novos contornos: se Deus é justo, é necessário que possa retribuir os seus fiéis também e sobretudo após a morte. É neste contexto da crise macabaica, nos finais do século II a.C., que começa a surgir de forma mais estruturada e incisiva a possibilidade de uma imortalidade que enquadre uma ressurreição dos corpos, aspecto que o livro da Sabedoria (século I) irá reforçar, como tão bem escutamos nas leituras dos funerais: «A vida dos justos está nas mãos de Deus, nenhum tormento os atingirá» (Sab 3,1ss).
Jesus situa-se nesta linha. Para Jesus, enquanto totalmente humano, a morte é uma realidade dramática. Ele chora pela morte de Lázaro e vive a agonia diante da eminência da morte. Mas na Sua ressurreição de entre os mortos, mostra-nos que o Deus da vida e do amor não pode permitir que a morte tenha a última palavra. Em Jesus e no Seu mistério pascal, o enigma da morte torna-se certeza, porque triunfo de Jesus. As Suas palavras tornam-se conforto e abrem-nos também o horizonte da vida: «Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá para sempre (Jo 6,51), «Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá» (Jo 11,25). Paulo insiste: «se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé, ainda estamos nos nossos pecados» (1Cor 15,14). E nós apoiamo-nos, ainda, na promessa que da boca de Jesus vem: «Hoje estarás comigo no Paraíso» (Lc 23,43).

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

SER SANTO - ENTRE A REALIDADE E A UTOPIA




Hoje celebramos a Solenidade de Todos os Santos: os conhecidos e desconhecidos, os de devoção ou os sem nome. Mais do que um mero feriado com enraízadas tradições, com idas maciças ao cemitério (antecipando o dia 2) e o tradicional «Pão por Deus» (hoje em dia, transformado em tantos lugares num desfile carnavalesco de bruxas, fantasmas e demónios), a presente solenidade constitui para nós uma «pro-vocação». Celebrar Todos os Santos não é apenas «exultar de alegria no Senhor e entoar hinos e cantos» aos nossos intercessores, tornando mais visível esta união estreita entre a Igreja terrestre e a Igreja celeste, que ganha uma densidade própria na celebração da Eucaristia. Celebrar Todos os Santos significa percorrer a estrada da santidade que é possível não só a algumas ilustres figuras do passado e do presente mas a todos os que pelo Batismo se tornam filhos de Deus.

Por isso, esta celebração procura vincar como a santidade não é demodée, mas um desafio permanente lançado a cada crente. A credibilidade da Igreja, hoje em dia, passa forçosamente pela seriedade com que cada um de nós, batizados, acolhe a proposta cristã. Diz S. Paulo: «Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto» (Col 3,1). Eis o que significa procurar a santidade: aspirar às coisas do alto, mesmo na realização das coisas terrenas. Efectivamente, «Deus nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na Sua presença» (Ef 1,4). O Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Lumen Gentium, veiculou esta «vocação universal à santidade». Mas o que é isso de ser santo?

No Evangelho, Jesus é definido como «o Santo de Deus», e várias vezes pela boca de endemoninhados (veja-se o caso de Mc 1,25). Nos Actos dos Apóstolos, santos são os cristãos perseguidos em Jerusalém (Act 9,13), ou seja, os que percorrem a via de Jesus. Nesta linha de continuidade, percebemos que ser santo mais não é do que trilhar o caminho de Jesus. Não se trata de uma 'encarnação' do Mestre, mas de uma 'imitação' (como Paulo apologeticamente o fazia em tom auto-elogioso da sua pessoa). Ser santo não significa, por isso, viver acima do mundo, numa terra de ficção ou imaginação (isso seria contrariar a lógica da encarnação), mas acolher, discernir e viver em cada momento os sentimentos do próprio Deus que contemplamos em Jesus. No fundo, ser santo implica a 'renovação' permanente do estado de graça em que Deus nos criou, como Sua imagem e semelhança (Gn 1,26). Não se trata, por isso, de um status especial ou de uma realidade extraordinária, mas de uma característica inata e ordinária que carece apenas de uma consciência mais vincada e cuidada da sacralidade do que somos. Porque é possível, como diz S. Paulo, já não sermos nós a viver, mas Cristo a viver em nós (Gal 2,20); porque é possível, como diz Jesus, «ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5,48); porque é possível, pelos sacramentos da Igreja, a santificação contínua de cada fiel e a comunhão plena com Deus; porque o Senhor torna possível que, mediante a acção do Seu Espírito, nos tornemos «templo santo de Deus» (1 Cor 3,16). A santidade não é uma utopia, mas uma possibilidade para quem procura e uma realidade para quem deseja. Se Deus caminha na história através dos passos dos santos, que para muitos é o único Evangelho lido e acolhido pelos nossos contemporâneos, não enjeitemos este dom de transformarmos os nossos passos em pegadas de Deus na história humana, que para o crente será sempre uma «história santa».

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Do Jubileu Extraordinário ao Jubileu Ordinário da Misericórdia





Misericórdia e mísera (misericordia et misera)... assim começa a mais recente Carta Apostólica do Santo Padre na conclusão do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Naturalmente, a fecundidade deste Jubileu não se fecha nestas inspiradas e inspiradoras letras do nosso Papa, mas também não nos deixa sossegados na passividade de uma história eclesial que se limitou a viver mais um momento jubilar. No fundo, permanece a questão: e agora?!

O Papa lança o mote no n. 16 desta mesma carta: «Termina o Jubileu e fecha-se a Porta Santa. Mas a porta da misericórdia do nosso coração permanece sempre aberta de par em par. Aprendemos que Deus Se inclina sobre nós (cf. Os 11, 4), para que também nós possamos imitá-Lo inclinando-nos sobre os irmãos. A saudade que muitos sentem de regressar à casa do Pai, que aguarda a sua chegada, é suscitada também por testemunhas sinceras e generosas da ternura divina. A Porta Santa, que cruzamos neste Ano Jubilar, introduziu-nos no caminho da caridade, que somos chamados a percorrer todos os dias com fidelidade e alegria. É a estrada da misericórdia que torna possível encontrar tantos irmãos e irmãs que estendem a mão para que alguém a possa agarrar a fim de caminharem juntos». Efectivamente, a vontade do Santa padre é mesmo a de efectuar esta revolução pastoral: a afirmação da misericórdia como critério e como forma eclesial por excelência. No dinamismo da complexa vida eclesial, a misericórdia não pode permanecer como um mero apêndice ou decoração nas múltiplas actividades das nossas comunidades; ela deve ser o motor das próprias rotinas, singulares e comunitárias, na vida do cristão.

No fundo, o Papa quer que a Igreja respire misericórdia. O simbolismo da Porta Santa anuncia isto mesmo: que a Igreja, no seu todo, inale o odor da misericórdia divina, o deixe entrar em todas as dimensões da sua vida e não bloqueie o acesso a quem a procure. Por isso, mesmo que materialmente as «portas santas» sejam fechadas, a Porta da Misericórdia permanecerá aberta; mesmo que tenha chegado ao fim o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, perpetuar-se-à o Jubileu Ordinário da Misericórdia. A própria faculdade expandida a todos os sacerdotes na absolvição de certos pecados «reservados ao bispo» (neste caso, o aborto) manifesta este desejo de que as portas da misericórdia divina jamais se fechem para quem a quer receber de coração arrependido; como no caso da mulher adúltera, no cap. 8 do Evangelho de S. João, a «misericórdia triunfa sobre o juízo», a pessoa triunfa sobre a lei, o Espírito triunfa sobre a letra. Bendito seja Deus porque nos concedeu, mediante a intuição (inspirada) do Santo Padre, a possibilidade de renovar (e refundar) o nosso olhar misericordioso sobre tudo (e todos) o(s) que nos rodeia(m).

Convido-vos a ler na íntegra esta Carta profundamente programática. Como diz o Santo Padre, «o perdão é o sinal mais visível do amor do Pai, que Jesus quis revelar em toda a sua vida» (n.2). O Papa Francisco adverte para um perigo: «a tentação de se limitar a fazer a "teoria da misericórdia" é superada na medida em que esta se faz vida diária de participação e partilha» (n.20). Por isso, no fim adverte para a urgência de uma verdadeira cultura da misericórdia, em que as obras da misericórdia ganham a densidade de uma «artesanalidade», pois «nenhuma delas é cópia da outra; as nossas mãos podem moldá-las de mil modos e, embora seja único o Deus que as inspira e única a "matéria" de que são feitas, ou seja, a própria misericórdia, cada uma adquire uma forma distinta» (n.20). Não se confunde com filantropia, nem com meros sentimentos de comoção; é uma verdadeira comunhão com o olhar de Cristo sobre a humanidade, como tão bem testemunha o ícone deste Jubileu Extraordinário; porque é simultaneamente divina (enquanto dom) e humana (enquanto acção), «a cultura da misericórdia forma-se na oração assídua, na abertura dócil à ação do Espírito, na familiaridade com a vida dos Santos e na solidariedade concreta para com os pobres. É um convite premente para não se equivocar onde é determinante comprometer-se (n.20)».

Por isso, o Papa, em jeito de definição da essência da misericórdia que se exige a cada crente, define a mesma em vários vectores, que devem ser objecto do acolhimento e da práxis das comunidades:
  • A Misericórdia como celebração, em que mais do que um exercício parenético, se torna verdadeiramente realizadora (mediante a acção de Deus que santifica) e libertadora (na alegria de quem se sente acolhido, amado e perdoado);
  • A Misericórdia como consolação, manifestada sobretudo na solicitude e acompanhamento próximo às situações mais frágeis e dramáticas da vida humana (crises familiares, momentos de luto pela morte de alguém, etc.);
  • A Misericórdia como renovação e redenção, que tem a capacidade de regenerar aquilo que estava decaído, mediante o encontro de dois corações: «o de Deus e o do Homem. (...) Nisto se nota que somos verdadeiramente uma "nova criação" (Gal 6, 15): sou amado, logo existo; estou perdoado, por conseguinte renasço para uma vida nova; fui "misericordiado" e, consequentemente, feito instrumento da misericórdia» (n.16).
  • A Misericórdia como imaginação, nesta criatividade operante que encontra novas formas de expressão no mundo de hoje. Importa, a este ponto, (re)descobrir novas obras de misericórdia e (re)descobrir novos lugares onde a misericórdia possa ser vivida com horizontes renovados e onde a Igreja possa ser autenticamente a «túnica de Cristo» (n.10).
Aos padres lança igualmente um forte apelo: «peço-vos para serdes acolhedores com todos, testemunhas da ternura paterna não obstante a gravidade do pecado, solícitos em ajudar a refletir sobre o mal cometido, claros ao apresentar os princípios morais, disponíveis para acompanhar os fiéis no caminho penitencial respeitando com paciência o seu passo, clarividentes no discernimento de cada um dos casos, generosos na concessão do perdão de Deus. Como Jesus, perante a adúltera, optou por permanecer em silêncio para a salvar da condenação à morte, assim também o sacerdote no confessionário seja magnânimo de coração, ciente de que cada penitente lhe recorda a sua própria condição pessoal: pecador mas ministro da misericórdia» (n.10).



«Este é o tempo da misericórdia», repete de forma continuada o Santo Padre. A misericórdia vive-se no agora, a misericórdia conjuga-se no presente. Por isso... "misericordiemos"!

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Carta a Diogneto: uma boa definição do ser cristão já no séc. II



“Os cristãos não se distinguem dos outros homens nem por sua terra, nem por sua língua, nem por seus costumes. Eles não moram em cidades separadas, nem falam línguas estranhas, nem têm qualquer modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, nem se deve ao talento e à especulação de homens curiosos; eles não professam, como outros, nenhum ensinamento humano. Pelo contrário: mesmo vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes de cada lugar quanto à roupa, ao alimento e a todo o resto, eles testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal.


Vivem na sua pátria, mas como se fossem forasteiros; participam de tudo como cristãos, e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é sua pátria, e cada pátria é para eles estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Compartilham a mesa, mas não o leito; vivem na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm a sua cidadania no céu; obedecem às leis estabelecidas, mas, com a sua vida, superam todas as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, ainda assim, condenados; são assassinados, e, deste modo, recebem a vida; são pobres, mas enriquecem a muitos; carecem de tudo, mas têm abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, recebem a glória; são amaldiçoados, mas, depois, proclamados justos; são injuriados e, no entanto, bendizem; são maltratados e, apesar disso, prestam tributo; fazem o bem e são punidos como malfeitores; são condenados, mas se alegram como se recebessem a vida. Os judeus os combatem como estrangeiros; os gregos os perseguem; e quem os odeia não sabe dizer o motivo desse ódio.
Assim como a alma está no corpo, assim os cristãos estão no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo; os cristãos, por todas as partes do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não pertencem ao mundo. A alma invisível está contida num corpo visível; os cristãos são visíveis no mundo, mas a sua religião é invisível. A carne odeia e combate a alma, mesmo não tendo recebido dela nenhuma ofensa, porque a alma a impede de gozar dos prazeres mundanos; embora não tenha recebido injustiça por parte dos cristãos, o mundo os odeia, porque eles se opõem aos seus prazeres desordenados. A alma ama a carne e os membros que a odeiam; os cristãos também amam aqueles que os odeiam. A alma está contida no corpo, mas é ela que sustenta o corpo; os cristãos estão no mundo, como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo. A alma imortal habita em uma tenda mortal; os cristãos também habitam, como estrangeiros, em moradas que se corrompem, esperando a incorruptibilidade nos céus. Maltratada no comer e no beber, a alma se aprimora; também os cristãos, maltratados, se multiplicam mais a cada dia. Esta é a posição que Deus lhes determinou; e a eles não é lícito rejeitá-la”.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Ler e rezar com a Sagrada Escritura - texto de Santo Isidoro



A oração purifica-nos, a leitura instrui-nos. Pratiquemos uma e outra coisa, porque ambas são boas. Mas se isso não é possível, é melhor orar do que ler.
Quem deseja estar sempre com Deus, deve orar e ler frequentemente. Quando oramos, falamos nós com Deus; quando lemos, fala Deus connosco. 
Todo o nosso progresso vem da leitura e da meditação. O que ignoramos, aprendemo-lo com a leitura: o que aprendemos, conservamo-lo com a meditação. 

É dupla a vantagem que tiramos da leitura da Sagrada Escritura: ilumina-nos a inteligência e, subtraindo-nos às vaidades do mundo, leva-nos ao amor de Deus. 
Dupla deve ser também a preocupação com que devemos ler: primeiro, procurar compreender a Escritura; segundo, explicá-la para proveito do próximo com a devida dignidade. Naturalmente, só quem procura compreender o que leu estará apto para explicar o que aprendeu. 
O leitor diligente pensa mais em pôr em prática o que lê do que em adquirir a ciência. É menor desgraça desconhecer um ideal do que, tendo-o conhecido, não o atingir. Lemos para compreender o que é recto, e compreendemos para o pôr em prática. 
Ninguém pode descobrir o sentido da Escritura Sagrada se não a lê assiduamente, como está escrito: Tem-na em grande estima e ela te exaltará; se a recebes, ela será a tua glória. 
Quanto mais assíduos formos na leitura da palavra divina, tanto melhor a compreenderemos, como a terra que tanto mais frutifica quanto melhor é cultivada. 
Há alguns que têm boa inteligência; mas são negligentes em ler os textos sagrados; o seu desinteresse mostra o desprezo por aquilo que a leitura lhes poderia ensinar. Há outros, porém, que desejam saber, mas têm pouca inteligência. Estes, com uma leitura assídua, conseguem aprender aquilo que os mais inteligentes, pela sua preguiça, nunca aprenderão. 
Assim como o menos inteligente consegue, pela sua aplicação, recolher o fruto do seu estudo diligente, assim também aquele que menospreza a inteligência que Deus lhe deu, se torna réu de condenação, porque despreza um dom recebido e o deixa sem fruto. 
A doutrina que não é acompanhada pela graça de Deus, entra pelos ouvidos, mas não chega ao coração; faz ruído exteriormente, mas interiormente não aproveita ao espírito. A palavra divina só desce dos ouvidos ao mais íntimo do coração, quando a graça de Deus opera interiormente na alma.